A mediação do professor e o brinquedo como suporte de aprendizado.

Com as novas Diretrizes Curriculares Nacionais, Resolução n. 1/CNE, de 15/05/06, o curso de pedagogia passa a centrar seu foco na formação de professores para a educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental. Essa nova orientação curricular coloca a infância no centro das preocupações desses cursos e toda a ação pedagógica diretamente ligada ao conhecimento que se tem desse estágio da vida.

Esse pressuposto, de que a ação docente se torna mais eficaz quanto mais se conhece a infância, redimensiona a formação do professor de tal forma que o ensino e a pesquisa não podem faltar nos cursos de pedagogia, onde a criança deixa de ser apenas sujeito da ação docente para ser também objeto de reflexão.

Um dos grandes desafios da educação infantil e de seus profissionais está em compreender, conhecer e reconhecer o jeito particular das crianças serem. Os conhecimentos vindos da psicologia e de outras ciências são de grandes valia para desvendar o universo infantil, apontando algumas características comuns de ser das crianças, onde elas permanecem únicas em suas individualidades e diferenças.

Dessa forma, este artigo propõe um estudo destacando a importância do papel do professor de educação infantil no desenvolvimento das crianças. O objetivo é estudar o processo de aprendizagem e desenvolvimento na infância destacando a importância do professor. Pretende-se contribuir com os profissionais da área da educação, mostrando como é fundamental e insubstituível a mediação do professor neste processo como também, a importância da mediação durante o brincar, principalmente no que se refere à educação infantil e séries iniciais do Ensino Fundamental.

Durante muito tempo acreditava-se que a criança estava preparada para o aprendizado aos sete anos de idade. Aceitando que a maturidade mental biológica, o cérebro, só era capaz de aprender nessa idade. Porém hoje se sabe que isso não faz sentido, que essa forma de pensar servia apenas como interesses políticos e que o aprendizado das crianças pequenas tem inicio muito antes de sua ida a escola.

Segundo a Teoria Histórica Cultural, que tem como principal expoente Vygotsky, quando a criança, nasce no primeiro mês de vida predomina o biológico, depois com a internalização da linguagem dos adultos e na pratica social ela passa a agir cada vez mais por convivência. À medida que a criança aprende a falar suas ações passam a ser de forma racional e humana. Por isso um dos momentos mais importantes é quando a linguagem vai sendo internalizada. Pois, é a linguagem que forma, organiza e expressa o pensamento.

Para esse autor, aprendizado e desenvolvimento caminham juntos e um é completamente dependente do outro. O aprendizado se define como um processo de apropriação e de transformação do conhecimento historicamente construído e socialmente disponível. Enquanto que desenvolvimento é definido como a formação de diferentes capacidades mentais, afetivas e emocionais que ocorrem mediante a interação social.

Conforme a Teoria de Vygotsky há dois níveis de desenvolvimento: o nível real e o nível potencial. O nível de desenvolvimento real: compreende as funções mentais que são resultados de ciclos já completados, ou seja, se caracteriza pela atividade independente da criança e tudo o que foi apreendido.

“O primeiro nível pode se chamado de nível de desenvolvimento real, isto é, o nível de desenvolvimento das funções mentais da criança que se estabeleceram como resultado de certos ciclos de desenvolvimento já completados” (VYGOTSKY, 1984, p. 95).

De acordo com Vygotsky (1984), o nível de desenvolvimento potencial: caracteriza-se por aquelas funções em vias de se completarem, que ainda se encontram em formação, ou seja, nesse nível a criança só consegue desempenhar a ação com a ajuda de outros, sob mediação. Então neste nível o papel do professor como mediador é de fundamental importância.

À distância entre o nível de desenvolvimento real e o potencial compõe o que Vygotsky denomina: Zona de Desenvolvimento Proximal, segundo ele a Zona de Desenvolvimento Proximal é a distancia entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução de independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes. Então:

[...] A zona de desenvolvimento proximal define aquelas funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de maturação, funções que amadurecerão, mas que estão presentemente em estado embrionário [...] (VYGOTSKY, 1984, p. 97).

Para o autor, a zona de desenvolvimento potencial refere-se àquelas funções que estão em processo de maturação, ou seja, que estão em estado embrionário. Sendo assim, é justamente nesta zona de desenvolvimento proximal que a aprendizagem deve ocorrer, objetivando atingir o nível de desenvolvimento potencial.

Então o que é a zona de desenvolvimento potencial hoje, será o nível de desenvolvimento real amanhã. Portanto o bom ensino é aquele que incide no nível de desenvolvimento proximal, assim vai adquirindo conhecimento até chegar ao nível real que é o que foi apreendido.

Sendo assim, para a Teoria Histórico-Cultural, o professor tem papel de fundamental importância, pois seu trabalho deve incidir diretamente sobre a zona proximal desencadeando a formação de novas funções ou capacidades mentais e permitindo que outras que estão em desenvolvimento venham a se completar.

Nesse sentido, a aprendizagem é extremamente importante, uma vez que, segundo Vygotsky (1984), é a aprendizagem que impulsiona o desenvolvimento do educando, ou seja, a memória, a atenção, percepção e o raciocínio lógico.

Partindo deste pressuposto, o brinquedo é uma ferramenta extremamente importante para o processo de ensino aprendizagem, uma vez que, por meio do mesmo é possível levar a criança novos conhecimentos:

A infância é, conseqüentemente, um momento de apropriação de imagens e de representações diversas que transitam por diferentes canais. As suas fontes são muitas. O brinquedo é, com suas especificidades, uma dessas fontes. Se ele traz para a criança um suporte de ação, de manipulação, de conduta lúdica, traz-lhe, também, formas e imagens, símbolos para serem manipulados (BROUGÉRE, 2001 p. 40 e 41).

E no que se refere a essa questão, o brincar sempre fez parte do cotidiano infantil mais, nem sempre lhe foi dada à devida importância. Durante muito tempo o brinquedo era visto apenas como uma forma de dar prazer às crianças, era com esse intuito que pais e escolas incentivam as crianças a brincar. No entanto, hoje, pesquisas e estudos comprovam que definir o brinquedo como uma atividade apenas prazerosa não é correto.

A brincadeira nem sempre é prazerosa por que muitas vezes a criança ainda não desenvolveu as habilidades e conceitos necessários para realizar determinada brincadeira com sucesso. Por esse fracasso, pode ocorrer da criança ser ridicularizada por colegas e até mesmo pelos professores. Então, nesse sentido, é importante que o professor esteja atento buscando evitar essas situações de exposição da criança, mais ao mesmo tempo, organizar atividades, onde por meio do lúdico a criança pode superar sua dificuldade e desenvolver habilidades e conceitos necessários para a realização das atividades propostas, contribuindo assim para o desenvolvimento da criança como um todo.

Em primeiro lugar devemos definir aqui o que é brinquedo, assim nas palavras de Brougère:

...brinquedo é aquilo que é utilizado como suporte numa brincadeira; pode ser um objeto manufaturado, um objeto fabricado por aquele que brinca, uma sucata, efêmera, que só tenha valor para o tempo da brincadeira, um objeto adaptado. Tudo, nesse sentido, pode se tornar um brinquedo e o sentido de objeto lúdico só lhe é dado por aquele que brinca enquanto a brincadeira perdura (BROUGÉRE, 2001, p. 62).

Muitos brinquedos além de reproduzir as ações de um adulto possibilitam vários níveis de significações, entre elas, conduz a criança a manipular uma imagem de si mesmo. Também serve de suporte para representações como histórias retiradas de livros , filmes e desenhos animados. Assim, o brinquedo transmite a criança conteúdos simbólicos, imagens e representações produzidas pela sociedade na qual a criança vive.

Então, ao brincar a criança imita a mãe, a professora como modelo de um adulto, dessa forma ao imitar os adultos ela internaliza valores, regras de conduta. Essa ação da criança deve ser valorizada e incentivada pelos adultos, pois ela contribui para a aquisição de novos conhecimentos e para o desenvolvimento das funções psicológicas superiores. No entanto, não é toda imitação que pode produzir desenvolvimento, vai depende também quem ela imita.

Diante disso, atualmente se vê uma grande preocupação dos pais com relação aos seus filhos no que diz respeito à tecnologia. As crianças da sociedade moderna, assim como os adultos, estão inseridos no mundo globalizado, onde a tecnologia da informação está presente. Dessa forma, a mídia tem um papel marcante e a televisão passou a ser referencia e transmissora de cultura para as crianças.

Para Brogugère (2001), a televisão tem grande influência sobre a imagem do brinquedo e sobre seu uso além de estimular o consumo de alguns deles. Pois, se por um lado a mídia chama a atenção das crianças fazendo com que estas fiquem várias horas de seus dias diante da televisão, por outro lado, ela estimula o consumo de alguns brinquedos e fornecem as crianças novos conteúdos para suas brincadeiras, ou seja, a televisão com sua influencia tornou-se fornecedora dos suportes de brincadeiras:

A televisão não se opõe à brincadeira, mas alimenta-a, influencia-a, estrutura-a na medida em que a brincadeira não nasceu do nada, mas sim daquilo com o que a criança é confrontada. Reciprocamente, a brincadeira permite a criança apropriar-se de certos conteúdos da televisão (BROGUGÈRE, 2001, p. 56).

No que se refere a essa questão vale ressaltar que é a qualidade do conteúdo que o indivíduo tem acesso que vão determinar a qualidade de suas funções psicológicas superiores assim como determinar também a compreensão das coisas que o cercam. Dessa forma, acreditamos ser necessário que os pais reflitam sobre essa questão e passem a vigiar seus filhos e a qualidade dos programas que ele tem acesso assim como também a questão da Internet que possibilita as crianças o mundo diante de si.

Ainda com relação a este assunto, uma matéria publicada na revista Veja deste ano, que tem como titulo “Escancarada - assim é sua casa.” , mostra que as crianças na maioria das vezes correm riscos tanto presos dentro de casa em seus quartos diante da “janela do mundo virtual” com seus perigos quanto nas ruas. Já que a televisão é a mídia mais difundida no mundo e a atividade de lazer dominante da maioria das crianças. Assim, as crianças se familiarizam tanto com o que se passa na telinha que vai se tornando cada vez mais familiar.

Enquanto isso, a família se torna cada vez mais distante. Certas crianças têm mais contato com uma tv do que com seus próprios pais, quase sempre os pais chegam do trabalho a noite e enquanto isso a criança aproveita o tempo diante da tv e quando os pais chegam estão cansados e acabam dormindo em frente à tv e os filhos viram a noite diante da telinha.

Referente a esse assunto Brogugère enfatiza que a televisão tem grande influência sobre a imagem do brinquedo e estimula o consumo destes. Porém, é preciso que os pais fiquem atentos e vigilantes com a qualidade de programas que os filhos tem acesso.

Ainda sobre essa questão, Kishimoto no livro: Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação, ressalta a importância dos pais e educadores diante da influência da mídia:

“Mesmo em se tratando da comunicação infantil com um conjunto de formas e conteúdos audiovisuais produzidos com novas e novíssimas tecnologias informatizadas (TVs, vídeos interativos), as responsabilidades, compromissos e reflexões sobre o sentido dessas ações comunicacionais se colocam para os adultos que convivem com crianças no dia-a-dia, sobretudo os educadores” (KISHIMOTO, 2007, p. 146).

Dessa forma, a autora mostra que a atualidade exige que se conheça e compreenda a qualidade das brincadeiras e dos brinquedos presentes na mídia principalmente as pessoas que estão próximas das crianças. Ou seja, é preciso que os programas infantis, os desenhos animados, as brincadeiras e os comerciais sejam analisados por pais e professores para que estas possam ter conhecimento para refletir sobre o que seus filhos ou alunos assistem. Sendo assim, é importante que o professor tenha uma formação visando estes novos desafios da sociedade moderna:

“Nos cursos de graduação e nas escolas, nós, os formadores e educadores de crianças, precisamos aperfeiçoar nossas pesquisas e modos de organizar e de desenvolver melhores projetos de iniciação e de formação continua de professores em comunicação escolar, também, a respeito da população social do lúdico, incluindo saber sobre as mídias presentes na vida das crianças, seus alunos” (KISHIMOTO, 2007, p. 161).

Então, por meio dos estudos de Vygotsky e de outros autores estudados podemos concluir que o brinquedo tem grande influência no desenvolvimento de uma criança. Essa atividade possibilitará uma bagagem cultural para a criança que resultará na formação do futuro adulto. Sendo assim, é fundamental e insubstituível a mediação do professor principalmente no que se refere à pré-escola, ou instituições infantis e séries iniciais do ensino fundamental pois, é o professor que da o caráter pedagógico ao brinquedo.

Portanto, é nítida a importância do papel do professor e é preciso que este tenha consciência de sua função e esteja preparado, sempre buscando novos conhecimentos para formar o indivíduo critico e reflexivo.

Formadas em Pedagogia pela Faculdade do Noroeste Paranaense - FANP. "Foi durante o curso, principalmente nos estágios, que percebemos a importância do professor como mediador e ressaltamos o brinquedo como um riquíssimo suporte para o aprendizado sob a mediação do profissional".

Sheyla Balbo Belentani (sheilabalbo@hotmail.com)

Roseli Gomes Depieri (rosegomes@hotmail.com)

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