Adolescência: idade da solidão

É muito difícil para um jovem atravessar a adolescência sem deixar que a solidão impregne profundas marcas em seu psíquico, contribuindo negativamente na construção do seu caráter. As cicatrizes deixadas pela solidão no psiquismo do adolescente, distanciam-no das suas raízes familiares destruindo, na maioria das vezes, uma construção psíquica e cultural proposta desde os primeiros dias da infância, pelos pais e pela sociedade a qual pertence.

Entre as tantas fases do desenvolvimento humano, a adolescência é a mais conflitante. Inicia-se por volta dos dez ou onze anos, estendendo-se até a pós-puberdade, que tem sua conclusão aproximadamente aos vinte anos. No entanto, a adolescência pode ser vista em seus múltiplos vértices: psicológico, cultural, social, biológico e tantos outros que se inserem em um processo que assume peculiaridades de acordo com a cultura vigente.

Para Ariès (1981) a infância, como período evolutivo e com necessidades específicas, é uma invenção da modernidade, tendo cerca de 150 a 200 anos: a adolescência é ainda mais recente referindo-se a um período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial (1918 e 1939). Até então se passava da infância para a idade adulta em um curto espaço de tempo, após breves rituais de iniciação, tanto que Freud, pai da psicanálise, nunca usou a palavra adolescência, pois esse termo não existia na língua alemã de seu tempo. Referia-se a esse período como juventude ou puberdade.

As variantes deste desenvolvimento humano, através dos séculos, oscilaram em suas visões e necessidades, culminando em uma nova definição, onde a adolescência surge como um importante período de transição entre a infância e a fase adulta, tanto no fator psíquico, como também físico, no aspecto de amadurecimento dos órgãos genitais e do aparecimento de caracteres sexuais secundários.

Para Outeiral (2008), a adolescência é composta de três etapas que se misturam em suas características enquanto se processam e se alteram, num constante vai e vem, determinando-se como: adolescência inicial (entre 10 e 14 anos), tendo como características básicas as transformações corporais e alterações psíquicas derivadas destes acontecimentos; adolescência média (dos 14 aos 17 anos) tem como seu elemento importante as questões relacionadas à sexualidade, em especial, a passagem da bissexualidade para a heterossexualidade, e adolescência final (de 17 a 20 anos), sendo caracterizada pelo estabelecimento de novos vínculos com os pais, a questão profissional, aceitação do novo corpo e dos processos psíquicos do mundo adulto.

Já para D’Andrea (2006), considerando os aspectos fisiológicos como ponto de referência, estas etapas são definidas como pré-puberdade, puberdade e pós-puberdade, registrando que uma divisão por idade é totalmente arbitrária, pois defrontamos com adolescentes antes dos 10 anos, assim como após os 20 anos.

Essa difícil fase do desenvolvimento humano encontra suas barreiras em conflitos emocionais relacionados à reorganização do aparelho psíquico e ao reencontro deste ser na sociedade a que pertence, visto que deixou de ser criança e ainda não atingiu a sua maturidade, deparando-se com o medo da nova realidade a ser assumida: um novo padrão de comportamento e relacionamento que o projete no mundo adulto. Esse período de contestação gera uma situação conflitante que por sua vez pode levar esse jovem a reprimir-se ou isolar-se num sentimento de solidão.

Este sentimento relacionado aos conflitos provenientes do medo do novo, do desconhecido caminho a seguir, pode ser visto sob dois aspectos: o positivo, quando promove o crescimento e o desenvolvimento do ser humano como pessoa; e o negativo, quando o leva a um sentimento de rejeição tanto de si mesmo, quanto do mundo que o cerca, projetando-o ao egocentrismo e a auto piedade, culminando na autodestruição.

A infância é um período onde se constrói o companheirismo, a confiança e o respeito entre pais e filhos. A comunicação é de extrema importância nesta construção. Quando esses fatores falham ou ocorrem de maneira inadequada, essa criança chega à adolescência desestruturada, podendo assim, proporcionar motivos para levá-lo à solidão.

A indecisão entre a vontade da independência e o medo da responsabilidade, faz com freqüência exigências e reivindicações ambivalentes. Os pais sentem-se desconcertados e confusos por suas imposições e protestos contraditórios, gerando assim, certa incompreensão e sensação de estranheza, freqüentemente recíprocos. O adolescente sente-se inseguro em papéis que não lhe correspondem, percebe imposições intoleráveis, sente alteradas as suas mensagens e suas exigências.

Para Miceli (2006) na adolescência o jovem se projeta fora da família. O pai e a mãe deixam de ser referências para este jovem. Os personagens e ídolos servem agora como modelos para ele. Por outro lado, os relacionamentos com os colegas se tornam mais destacados: o adolescente tem necessidade extrema de ser acolhido pelo grupo do mesmo sexo, e começa a se firmar também nos relacionamentos com o sexo oposto.

Entretanto, o sentimento de solidão pode estar presente em qualquer lugar ou situação. Ocorre até mesmo durante uma festa com os amigos, no trabalho ou dentro de casa com a própria família. Pode existir o medo da intimidade, de deixar-se conhecer, de ser rejeitado, por haver timidez, incompreensão e desejo de possuir um relacionamento que muitas vezes não acontece.

Para Levy (2001), o adolescente oscila entre quatro ambientes que funcionam como refúgios psíquicos que podem ajudá-lo a organizar seus sentimentos de forma construtiva ou fazê-lo mergulhar na solidão e no abandono. Estes ambientes, a família, o mundo adulto, os grupos de adolescentes e o isolamento, são caminhos que quando percorridos na normalidade promovem um amadurecimento mais tranqüilo. No entanto, quando percorridos de forma que o adolescente promova uma fixação rígida em uma dessas comunidades torna-se uma psicopatologia.

Esses grupos são caminhos pelo qual o adolescente terá que passar para concluir sua caminhada rumo à maturidade. A forma pela qual será conduzido por eles é que fará a diferença entre ser um individuo normal ou problemático.

No adolescente mais próximo à normalidade, observa-se a utilização desses grupos como refúgios psíquicos que o auxiliam a conquistar um espaço mental com maior adequação que poderá induzi-lo a sobrepujar a ansiedade, amenizando o sentimento de solidão. Por outro lado, quando fixa-se em demasia, em qualquer um desses grupos, pode absorver experiências que o conduzirá com freqüência a uma expectativa solitária.

Outro fator relevante que conduz à solidão é a baixa estima, pois tendo pouca confiança em si mesmo é difícil sentir-se apto para criar relacionamentos com outros de sua idade. Esse sentimento surge muitas vezes das avaliações físicas, sendo a aparência e o comportamento questões protuberantes na sociedade, provocando assim um retraimento.

O aumento nas atividades e a obsessão pela eficiência geram sentimentos de inferioridade e inutilidade. A modernidade e a tecnologia levam o jovem a alienar-se do mundo cada vez mais, incapacitando-os de amadurecer através das experiências que o contato social proporciona.

Contudo, ao invés de enfrentar a solidão, há uma busca desenfreada para afastá-la, na ilusão de que algo ou alguém possa livrá-lo desse sentimento. Essa busca acaba levando-os a caminhos negativos e, muitas vezes, querem libertar-se através de bebidas, drogas, ou até mesmo tornando-se dependentes de alguém próximo. Os adolescentes, muitas vezes, descrêem da sua capacidade de cuidar da própria vida emocional e esperam que os outros supram suas necessidades; e estes, por sua vez, sentem-se sufocados e tendem a se afastarem ainda mais destes jovens.

Nesta fase da vida o adolescente promove, devido aos seus sentimentos ambivalentes, uma verdadeira busca do outro, fora do seu ambiente familiar. No entanto, sempre retorna às suas raízes para certificar-se de que não houve um rompimento definitivo com seus pais e para reabsorver seus padrões de relacionamento.

Quando a família estrutura-se de forma a promover esse relacionamento de confiança com o jovem adolescente, dá a ele condições de, na medida em que evolui em seus questionamentos, encontrar subsídios para enfrentá-los de forma condizente a um amadurecimento adequado, fazendo com que o sentimento de solidão, tão presente nesta fase do desenvolvimento, seja amenizado, interferindo de forma menos agressiva no ambiente psíquico deste jovem.

Não é nada fácil, tanto para o jovem adolescente quanto para sua família lidar com estes conflitos, pois, ambas as partes perdem-se em meio a estes paradigmas e sentimentos, de forma a, muitas vezes, desestruturar-se em suas crenças e convicções.

No entanto, quando a troca de experiências entre o jovem e a família tende a estruturar, ao longo dos anos, uma relação de confiança mútua, criará no adolescente a certeza que, mesmo em meio a tantos questionamentos e à vontade de buscar lá fora, longe do seio da família, o conhecimento do mundo dos adultos, mais cedo ou mais tarde poderá retomar esta relação sem que as perdas sejam tão significativas para seu mundo psíquico, reiterando para si mesmo um amadurecimento mais seguro, onde a solidão terá uma breve e natural passagem.

Franciele Monik Zanutto
Isabela Cristina Bonadia Veroneze
Nivaldo Donizeti Mossato
Rodrigo Robson Lolatto
(Acadêmica do Curso de Graduação em Psicologia da Faculdade Ingá – UNINGÁ.)

Supervisão e orientação:
Patrícia M. de Lima Freitas
Mestre em Psicologia pela UFSC; Docente do curso de graduação de Psicologia da Faculdade Ingá-Uningá; Universidade Estadual de Maringá e Universidade Paranaense – Unipar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

-ARIÉS, P. História social da criança e da família. 2². ed. Rio de Janeiro: Editora LTC, 1981.

-D’ANDREA, F.F. Desenvolvimento da personalidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.

-LEVY, R. O adolescente. IN: EIZIRIK, C.L. et.al.(org.) O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica. São Paulo: Artmed, 2001.

-MICELI, M. Sentir-se só. São Paulo: Paulinas, 2006.

-OUTEIRAL, J. Adolescer. 3ª ed. Rio de Janeiro: Revinter, 2008.

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