Entre as cruzes do caminho

Encontrei-O entre as cruzes que durante toda minha vida, relutei em aceitar. Cristo enviava-me as cruzes e eu, teimosamente ia depositando-as à beira dos caminhos. Uma a uma. Uma após outra. E Ele, no seu Amor, pacientemente insistia:

- Toma sua Cruz e siga-me!

Olhava eu, para dentro de mim e tentava não entendê-lo, para não assumir que o peso de minhas cruzes não estava no outro, estava em mim. Aceitar isso era demais! Ele queria muito. Ele queria tudo!

Quanto mais tentava fugir, mais Ele se aproximava: - Toma sua cruz!

Olhava eu, novamente para dentro de mim e, fugindo do impossível, renegava-o naqueles que Ele mesmo me escolhera como companheiros de viagem. Renegava-o na minha esposa, renegava-o em meus filhos, renegava-o em mim mesmo.

Santamente Ele tomava meus pecados e devolvia-os a mim, cada vez mais, com maior intensidade.

Saí de casa ainda garoto, pelo motivo que meu pai bebia muito e brigava com minha mãe. Cristo deu-me então de presente uma esposa alcoólatra, a qual não soube entender, amar e respeitar. E nessa dor, veio a morte. E o Cordeiro suplicava:

- Toma sua cruz...!

Preso em meu egoísmo e tomado pelas coisas do mundo, não queria ouvir as verdades a respeito de mim. Tomou-me outra vez pelas mãos e deu-me como esposa aquela que seria capaz de colocar-me frente-a-frente com o espelho, enfrentando meus pesadelos. No entanto, eu ainda não estava pronto. Sabiamente devolveu-me meu pai, já velho e doente, e, novamente me dizia:

- Toma sua cruz...!”

Por fim, quando pensava ser feliz por ter encontrado na minha filha Maria Clara, o retrato perfeito da família com a qual sempre sonhara, tomou-a de meus braços e arrebatou-a para os céus.

Converteu-me então em seu amor. Amor jorrado de sua cruz!

Dobrei-me, e compreendi:

- Não devo fugir das cruzes de minha vida, pois é impossível fugir de mim mesmo. Eu sou o peso das minhas cruzes. Os outros, aqueles que Cristo, sabiamente colocou na nossa frente, são os espelhos que fazem refletir o que realmente somos!

Reencontre-se! Recomece sempre, mergulhado no pensamento de que Deus o ama imensamente. Coloque-se de frente ao espelho e não tenha medo de si. Deixe-se refletir, de corpo e alma, pois o Cristo se faz presente nas nossas cruzes. Nele, o divino se faz humano e inunda nossa alma de luz e sabedoria.

Sede novos.
Sede a luz do mundo!

Quando cai a máscara
que cobre nosso eu,
o que sobra se não
Jesus abandonado?
- Eu Te escolho Senhor,
como meu único bem.
Reconstrua em mim,
forjado no fogo e no aço
das Tuas palavras,
o cristão que queres que eu seja.

Minha fortaleza vem do Senhor.
Não fui escolhido por minhas virtudes,
fui escolhido pela minha cruz.
As virtudes são do Senhor,
meu pecado é meu.
Minhas dores são minhas.
Minhas desventuras
são frutos de meu “ser”.
Se sou, não sou.
Se deixo de ser,
Ele é em mim.
Bendito Aquele
que mesmo assim me escolheu!

Bendito Aquele
Que nos deu a aurora.
Posso assim,
renovar a cada dia minha escolha:
- és Tu Senhor, meu único bem.
Espalha em mim
a luz do Teu alvorecer,
mesmo que seja em forma de cruz.
Faz de mim,
estrada da tua paixão.
Educa-me, como foste educado,
para que possa sentir Tuas chagas,
e como semente que germina,
dar frutos de Ti.
Meu senhor e meu Deus!!

Dou-Te Senhor,
Toda minha humanidade,
Pelo nada que preciso ser:
Crucifique-a ao lado da tua cruz.
Dou-Te,
Todo meu orgulho de mim,
Para que possa ser transpassado
Pelo teu amor,
Que jorra em minha alma
E eleva a ti o meu espírito.

Alguns Trechos

Nivaldo Donizeti Mossato - Todos os direitos reservados