A Lenda de Tarê e Totã

- Há muito, muito tempo atrás, antes mesmo de existir qualquer vestígio desta fazenda, os índios Xerente, que se autodenominavam Akwe habitavam esta região e viviam em paz e harmonia com a natureza. Exímios caçadores, além de formarem o ramo central das sociedades de língua Jê, exibiam, sempre que tinham oportunidade, suas habilidades a todos os membros da clã em grandiosas festas preparadas na aldeia.

Os adultos pintavam seus corpos oportunamente em datas festivas ou quando era decretada guerra entre tribos rivais. As crianças, por sua vez, usavam as pinturas cotidianamente.

Numa destas ocasiões, após uma cerimônia que durou três dias, o grande caçador Prazâ, que em xerente quer dizer Pé de Semente, saiu em missão de caça, junto com vários companheiros. Missão esta que tinha como objetivo capturar Haloe – uma espécie de onça com aparência humana, considerado um dos mais perigosos e temidos seres da selva. Os Haloe emitiam grunhidos horrendos e muito altos e podiam ser encontrados em bandos de até quatro seres, que atacavam simultaneamente, estraçalhando suas vítimas. Somente os pagés, quando estavam incorporados de muitos espíritos, conseguiam dominar aquelas terríveis criaturas. Prazâ precisava, porém, demonstrar que além de grande caçador era o protegido dos deuses e o escolhido para chefiar o clã.

Dois dias após a partida, sua companheira Mrõbdâ – Esposa do Sol - que esperava um filho seu, deu à luz inexplicavelmente a gêmeos, sendo que Turê - como era chamado os meninos antes de receberem um nome - morrera minutos após o parto. Tarê – a menina – fora rejeitada pela tribo e excluída imediatamente dos cuidados da mãe, sendo criada ocultadamente pelo pagé, com leite de onça, nos arredores da aldeia. Mrôbdã – Esposa do Sol – não resistiu e morreu de tristeza, três dias depois do parto.

Alguns dias após, quando Prazâ retornou da caçada, encontrou a esposa e o filho enterrados ao lado da palhoça. Em desespero, chorou cinco anos sobre a sepultura, até que suas lágrimas purificaram o espírito de sua amada e de seu filho, que nunca conhecera. Sem saber da verdade sobre o nascimento da menina, o grande caçador jamais empunhou arco e flecha e onde caíram suas lágrimas, nasceu uma árvore, até então desconhecida por toda pagelança.

Na primeira lua crescente após a sexta estação das flores, Prazâ sonhou com uma menina de mais ou menos seis anos, que tinha o rosto e os cabelos de sua amada Mrôbdâ. No sonho, a Tarê tomou-o pelas mãos e o levou à arvore que nascera ao lado da palhoça e olhando em seus olhos, com voz suave, porém de autoridade, falou-lhe: - “Prazâ olha e não vê. Não vê porque olha para fora do espírito, que tudo sabe e tudo enxerga. Os olhos de Prazâ vê sua gente, mas não enxerga seu destino. A semente cai na terra, mas se não morre, nada produz. Prazâ é semente de seu povo. Antes que as flores nasçam, devem cair as folhas. O destino do tempo antes do nascer das flores não é despir a árvore, deixando-a nua de suas folhas. É deixar que a seiva das folhas que caem, fecunde a terra e garanta a vida futura. Prazâ é seiva fecunda do seu povo, que deixou nascer do amor por Mrôbdâ, uma nova semente. Prazâ deve olhar para dentro de si mesmo, com o olho do espírito, para encontrar na semente do amor perdido o destino do seu povo”.

Enquanto falava, Tarê arrancou um galho da árvore desconhecida, tirou-lhe toda a casca e trançou-a como um cipó. Envergou a madeira ainda verde e amarrando o cipó em suas extremidades fez um arco, enfeitando-o com folhas e flores. Quando Prazâ acordou, o arco estava cruzado em seu peito e Tare, à sua frente, sorria, enquanto o vento brincava com seus cabelos. Prazâ gritou ao sol por sua amada Mrôbdã enquanto que Tarê, assustada, sumia na floresta.

De arco na mão, o grande caçador embrenhou-se na mata, tentando desvendar aquele mistério. Tarê o seguia de perto, sem se deixar ver. Em seu pequenino coração, nascia um sentimento novo e profundo. Tarê descobria seu destino.

Um dia, uma grande sombra cobriu a aldeia dos Xerente. As asas de uma grande águia abriram-se sobre aquele povo. Prazâ, empunhou novamente o arco e saiu em perseguição ao grande pássaro. Tarê o seguia e viu o pai pela última vez, sendo içado pelos ares, rumo ao sol, nas garras da águia gigante, deixando cair o arco aos seus pés.

Daquele dia em diante, todas as tardes, Tarê subia a mais alta colina, onde erguia-se o jirau-de-pedra e esperava o sol no poente. Munida de arco e flecha, atirava em sua direção, tentando acertar o coração do grande pássaro, que acreditava estar escondido atrás do sol. Com o passar dos anos, as flechas atiradas por Tarê aproximavam-se mais e mais do alvo, até que o inesperado aconteceu: parte do sol se desprendeu e caiu sobre a terra em forma de uma imensa bola de fogo. Com o impacto, penetrou profundamente no solo, atingindo um lençol freático, deixando atrás de si um imenso vale incandescente e sem vida. Irrompeu-se então da terra, um límpido veio d’água que a cobriu e fez renascer ali, todas as formas de vida.

Algumas gerações mais tarde, depois de serem dizimados quase que totalmente, Tarê foi reconhecida pelos Xerentes como filha da tribo e deram-lhe o nome de Knebdâ – Pedra do Sol . O vale passou a ser chamado de Totã – Olho da Chuva, devido às chuvas que desde então, caíam todos os dias na estação das flores, mudando o clima de toda região e fazendo transbordar, como num passe de mágica, todo tipo de vida animal e vegetal.

E o pai de Tarê jamais foi encontrado (...).

Alguns Trechos

Nivaldo Donizeti Mossato - Todos os direitos reservados