Plantar e Colher

(Tributo ao meu saudoso pai).

(...) Nasci neste local, em 23 de junho de 1922. Fazia pouco mais de dois anos que meus pais haviam chegado da Alemanha. Esta casa ainda não existia. Ela começou a ser construída quando eu já tinha de quatro para cinco anos. Isso tudo era mato.

- E esta mangueira já estava aqui Tio Aldo?

- Não Duda. Meu pai a plantou muitos anos depois, antes de partir para o paraíso. Lembro-me como se fosse hoje. Ele já estava bastante velho, e tantos anos trabalhados de sol-a-sol haviam lhe deixado muitas cicatrizes pelo corpo. Tinha uma saúde de ferro, embora aparentasse ser muito mais velho que realmente era. Um certo dia ganhou de uma senhora à qual ele sempre ajudava, uma cesta cheia de mangas. Repartiu-as com os filhos e depois de comer algumas, resolveu plantar um “caroço”. Deixou-o secar por dias. Fez a cova, preparou a terra, e quando ia plantá-lo, curioso eu lhe perguntei: - “Pai, o senhor acredita mesmo que um dia ainda vai comer desta fruta? Acredita que vai sobreviver à natureza desta planta que no mínimo vai demorar cinco anos para dar os primeiros frutos?”

Sabe o que ele me respondeu?

– “Filho, não importa a época em que o fruto vem. É necessário primeiro que se plante. Não é importante quem comerá do fruto ou usufruirá a sombra. O que importa é o que você plantou. Um homem, meu filho, precisa ter raízes. Raízes profundas no chão, para que tenha o que comer e dar de comer aos seus filhos. Raízes na alma, para ter a quem pedir socorro nas horas difíceis e agradecer as graças recebidas. Raízes no coração, para ter a quem amar e ser digno de perdão. Raízes na família, para ter um lugar para onde voltar, depois de um dia de trabalho, ou de um século de guerra. Quem planta uma árvore pensando somente em ter um lugar onde amarrar sua rede, não é digno da rede, tão pouco da sombra que a árvore lhe proporciona. Antes de tudo, meu filho, é necessário preparar a terra, cuidar da semente e escolher o lugar ideal, para que a planta possa crescer forte e sadia. Só assim haverá a possibilidade de se colher bons frutos. Somos assim, meu filho, tal qual uma planta que precisa ser cuidada, regada e podada. A qualidade dos nossos frutos, dependerá do tempo que estivermos dispostos a “perder” com eles.

Conforme Aldo falava, seu semblante parecia retratar a imagem do pai. A emoção e o respeito misturavam-se em suas expressões. Levantou-se lentamente e sorriu. Respirou o frescor da sombra e olhou para cada um com os olhos da alma, e os viu novos, e se viu novo, como se ainda tivesse doze anos (...).

Alguns Trechos

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