A Teoria de James

(...) Todos dormiam, exceto James, que astuto e sempre alerta olhava firme pela janela do quarto na esperança de descobrir alguma coisa que não se encaixasse naquele ritual matutino. As cenas da noite anterior ainda estavam em alerta em seus pensamentos. Percebera algo de estranho, embora não soubesse o quê. O galopar do cavalo que de repente sumiu, sem deixar vestígios, ainda não havia se dissipado de sua mente:

- As pegadas! As pegadas! Pensou alto.

- Falando sozinho? Indagou Ronaldo, que acabara de acordar e foi ter com o amigo no quarto.

- Pensando alto, meu amigo Ronaldo. Pensando alto.

-De que pegadas você estava “pensando” tão alto, caro colega?

- Venha comigo!

-Mas, James! Eu nem lavei o rosto ainda. Não escovei os dentes, nada!

- Depois, Ronaldo. Agora venha comigo.

Como que arrastando o amigo porta à fora, saíram em direção ao celeiro de onde o Alado havia fugido.

- Roni, foi tudo muito estranho ontem à noite, você não acha? E essa barulheira toda agora pela manhã. Muito estranho, muito estranho.

- Lá vem você com suas histórias. Está procurando um jeito de me assustar, não é? Não sou tão burro e nem tão medroso assim, James. O que aconteceu ontem foi fruto da nossa imaginação. Estávamos falando de assombração e ficamos impressionados. Só isso! E isso é normal, senhor sabichão.

-Normal ou não, tem alguma coisa que não se encaixa por aqui. Vamos ver as pegadas do animal Roni.

Aproximando-se do celeiro, James abaixou-se e começou a examinar cuidadosamente as pegadas encontradas próximo à entrada.

- São muitas, Roni. Muitas e desordenadas. Parece que o cavalo antes de sair correndo por aí, tentou livrar-se de alguma coisa que o prendia e rodopiou várias vezes. Vamos identificar as pegadas e segui-las.

Com uma rama de capim, James mediu a profundidade de cada pegada encontrada. Roni procurou imitá-lo e à medida que distanciavam-se do celeiro as pegadas pareciam estar menos profundas e menos visíveis, até sumirem por completo na areia fina que cobria os cascalhos.

- Sumiram! Da mesma forma que o animal.

- É a areia, James. Muito fina. Qualquer ventinho ou chuva deixa tudo liso, sem vestígios.

- Não ventou, nem choveu Roni. Não nesta noite.

- Choveu ontem às cinco horas, lembra? E o caminho é de cascalho. Chão firme não deixa vestígios.

- Correto. Embora a areia ainda esteja um pouco úmida nas laterais do caminho, na região central prevalece o cascalho. Mas, estamos falando de um cavalo Roni, não de uma borboleta. São mais de 20 arrobas sobre quatro patas e tenho certeza que o mágico David Copeerfield não passou por aqui ontem à noite.

- Vinte arrobas?! Quantos quilos são James?

- Cada arrouba são 15 quilos Roni, é só multiplicar por 20. Ou seja, são mais de 300 quilos de ossos, carne e músculos galopando por aí.

-Como você sabe se ele estava galopando, troteando ou sei lá o quê? Virou adivinho agora?

- Meu tio tem um haras e de vez em quando passamos o fim-de-semana lá. Conversamos muito. Ele sabe tudo sobre cavalos. É deveras apaixonado por eqüinos, apaixonado. Veja só estas pegadas na areia. Olhe bem para elas. Quantas são?

- Muitas, James!

- Consegue identificar quais são as traseiras e as dianteiras?

- Não! Parecem todas iguais.

- Mas não são. Todo impulso do animal é inicialmente promovido pelas patas traseiras. Assim, podemos perceber pela profundidade das pegadas no chão. A própria força da impulsão pressiona as patas contra o solo. Sem contar com o peso do animal, é claro. Quando o cavalo está marchando, o peso é distribuído mais uniforme entre as patas, embora a seqüência de passadas sejam aos pares, elas fluem lateralmente. Ou seja, posterior esquerda, dianteira esquerda, posterior direita, anterior direita. As passadas são mais calmas, os pés de trás tocam o solo adiante das pegadas dianteiras. O passo ordinário é mais curto e mais elevado, e os pés de trás tocam o solo atrás das pegadas dianteiras. Para cada tipo de passada existe uma seqüência. Estas pegadas, meu caro Ronaldo, são típicas do galope. Observe novamente as pegadas. Veja a seqüência das pisadas: posterior esquerda, posterior direita, dianteira esquerda, dianteira direita. Observe também que se segue um período em que todos os pés estão no ar e a próxima pegada está numa distância superior às encontradas logo na saída do celeiro, por tanto, numa velocidade superior.

- A que velocidade, James?

- Difícil de prever. Alguns cavalos chegam a atingir mais de 45 quilômetros por hora. Preciso fazer alguns cálculos, mas não estou convencido com o que estou vendo.

- Como assim?!

- Depois explico. Primeiro preciso ter certeza. Vamos voltar à sede. O café já deve estar servido. Procure não fazer nenhum comentário sobre minhas desconfianças caro Roni. Fique de boca fechada.

- Você deve ter seus motivos, James. Embora não tenha entendido muita coisa e ache que você está ficando meio louco, manterei a boca fechada. Bem fechada.

Com a ajuda de Ronaldo e um pedaço de barbante, James mediu a distância entre várias pegadas, desde a porta do celeiro e retirando do bolso uma pequena caderneta, rapidamente fez algumas anotações. Enquanto caminhava, seus pensamentos voavam longe. Muito longe daquele lugar(...).

Alguns Trechos

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