Outra Morte no Celeiro

(...) Max e o doutor Gomes aproximaram-se do celeiro, onde Vera e Aquiles, inconformados, ordenavam a retirada da segunda vítima da intoxicação. Um sentimento de inutilidade tomava o ar.

Gomes chamou Vera e orientou-a sobre os resultados de suas análises:

- Não há o que fazer, querida! Trouxe todos os vidros de soro disponíveis no laboratório. No entanto, creio que de nada servem neste caso. Os tipos de fungos e bactérias são incalculáveis e não consegui identificá-los. São resistentes à climatização e agem de forma desordenada e rápida, impossibilitando qualquer ação emergencial. Teremos que incinerar todo material usado neste celeiro e todo animal que não resistir às próximas doze horas. Todos nós teremos que usar luvas, máscaras, aventais, e descartá-las há cada três horas, no máximo.

- Os colonos correm perigo, Gomes?

- Todos nós, querida. Todos nós.

- Reduziremos então a quatro, as pessoas que ficarão neste celeiro: eu, você e mais dois voluntários. Ninguém deve correr riscos que desconheçam. Max, você volta daqui.

- Mas dona Vera! Sempre cuidei destes animais. Quero permanecer no celeiro e ajudá-los.

- Não, Max! Você ajudará muito mais ficando de fora. Tire todos daqui, inclusive a Branca, as pessoas que estão ajudando na sede, e a menina Clara. Leve-os de camionete ao encontro dos outros e cuide para que fiquem na colônia até amanhã. Suspenda todo e qualquer tipo de ração animal que tenhamos na fazenda. Nada Max, nada de ração, até que tenhamos encontrado a causa disso tudo. Manteremos contato.

- Ótimo, querida. Completou Gomes. Precisamos nos ater a todas as possibilidades de conter ou pelo menos amenizar esta catástrofe. Lembra-se do doutor Marks Smith?

- O Garoto? Lembro-me, claro!

- No laboratório, vi-o na capa de uma revista bem antiga. Era parceiro de pesquisas e muito amigo do Tio Otto. Embora ele tenha feito um belo trabalho na fazenda, há anos que não o vejo. Acredito que seja a pessoa certa para nos ajudar.

Todas as evidências deste caso indicam que o problema vem da ração composta, devido à decomposição avançada do girassol. E foram eles, o Tio Otto e o Smith, que desenvolveram todo o processo de genética modificada desta planta. Então, se alguém pode nos ajudar, este alguém é o Smith.

- Ele ainda trabalha para o governo?

- Creio que sim. Devo encontrá-lo no laboratório central.

Vou passar um rádio e pedir ajuda na capital para localizá-lo. Cada minuto pode custar uma vida. Enquanto isso oriente o Aquiles para a retirada do pessoal do galpão e peça que coordene uma higienização pessoal completa e incinere suas roupas, chapéus e botas.

O tom de voz de Gomes e Helena era incisivo e forte. Cada palavra parecia cortar-lhes a alma. Tudo precisava ser prático e rápido. Estavam lutando contra um inimigo desconhecido e cruel. Não havia tempo a perder.

- Max! Gritou Gomes. Retire os colonos que estão de vigia na entrada da trilha e peça que venham ter com o Aquiles e não permita que nenhuma pessoa ou animal se aproxime da plantação de girassol, até segunda ordem.

- E o Alado doutor?

- Terá que esperar Max. Terá que esperar.

- Aquiles, meu filho, tenha bastante cuidado consigo e com os colonos. Não os deixe retornar para a colônia hoje. É melhor respeitar uma quarentena mesmo que mínima para evitarmos propagação e contaminação. Alojem-se provisoriamente no galpão menor e depois que chegar ajuda veremos o que fazer. O Max avisará as famílias.

- Mãe, e o Thor? O que faremos com ele?

- Isole-o no celeiro principal. Junte os cachorros e os animais de pequeno porte e coloque-os nas baias dos cavalos. Se for preciso, amarre-os. Evite ao máximo o contato direto, porém, vocês ficarão responsáveis por eles. Agora vão! Precisamos agir rápido.

Enquanto Gomes tentava localizar o doutor Marks Smith na capital, Max encaminhando-se à sede da fazenda, tentava explicar à Branca o que estava acontecendo, sem, no entanto provocar grandes alardes. Despachou um colono ao portal da trilha com ordens expressas de trazer de volta os companheiros que lá estavam para que guardassem quarentena junto aos colegas que se alojavam no celeiro menor.

A tensão era tanta que esquecera até mesmo do almoço.

Em silêncio, Branca olhava a comida que esfriava no prato. Levantou-se e separou várias marmitas e as encaminhou para cada um que fazia parte daquele pesadelo, respeitando as rigorosas recomendações do doutor Gomes. Abraçou-se à Clarinha e com o olhar comandou a retirada de todos que auxiliavam na manutenção da sede da fazenda.

Vera e os colonos voluntários reforçavam as doses de soro, enquanto que Zara, a zebra, agonizava em seus últimos suspiros. Era a terceira vítima(...).

Alguns Trechos

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