O Céu é o Limite

A chuva cessara e por entre nuvens carregadas o sol infiltrava seus raios. O peito dolorido me fazia lembrar dos dias anteriores, e, a tira de couro no pescoço trazia-me para a realidade do momento. Olhei em volta e somente Homero, o pai do Fernando continuava ali. A respiração ofegante, porém ainda presente, mantinha-lhe a vida. Um relinchar conhecido quebrou a paz da manhã, seguido de vários gritos, que se espalhavam por entre a vegetação molhada.

- Nino! Nino! Gritava Marcos, tentando se fazer ouvir.

Levantei-me e, escorando nas paredes, fui até a janela.

Nervoso, Marcos gesticulava, indeciso.

Ao longe, sobre uma grande pedra em forma de tabuleiro, Nino abria os braços para seu derradeiro vôo. Um precipício abria-se à sua frente, no topo da montanha. Mais uma vez as nuvens se abriram e o sol o iluminou. O vento soprou seus cabelos e o menino parecia encontrar ali a essência da sua alma. Seu corpo frágil balançava sobre a pedra.

Marcos continuava a gritar, enquanto o cavalo inclinava-se próximo à porta do chalé e, batendo as patas no chão arrancava toletes de barro.

Minha voz uniu-se aos gritos do amigo e ressoaram nos confins.

- Ninoo! Ninooo!

O instinto entrou em ação, buscando no sobrenatural as forças suficientes para manter-me sobre o dorso do Alado. Em segundos cavalgava a galope sobre o imenso tapete verde que nos levava ao tabuleiro de pedra, onde Nino bailava ao vento. O equilíbrio era perfeito entre eu e o animal. Quanto mais o Alado corria, mais eu gritava, tentando evitar o trágico final.

Alado avançou sobre a grande pedra, como se flutuasse sobre ela, enquanto Nino soltava seu corpo no nada, projetando-se no abismo. Gritei, gritei com todas as forças do meu ser. E tomando o apito nas mãos, assoprei-o. O animal não refugou. Aumentou sua tração e num salto, arremessou-se no precipício (...)

Alado seguia Nino em sua queda. Um pio ecoou entre as montanhas, enquanto duas imensas águias surgiram no céu (...) o cavalo refugou e pude então presenciar o mais tenro de todos os milagres (...) um novo pio rompeu as fronteiras do abismo. Sob meu olhar extasiado, três águias tomaram o céu (...)

Alguns Trechos

Nivaldo Donizeti Mossato - Todos os direitos reservados