Literatura

O Negrinho do Morro

No ano passado comemorou-se, com justo mérito e jubilo, pelos quatro cantos do país, por intelectuais ligados á Academia Brasileira de Letras e nas inúmeras academias regionais de letras, bem como por todos os amantes da literatura, inclusive nas Universidades e escolas; mais ainda, ondas do entusiasmo dessa comemoração atingiram dezenas de países onde a literatura machadiana é apreciada e cultuada, o Ano do Centenário do Falecimento de Machado de Assis.

No dia 29 de setembro de 1908 falecia no Rio de Janeiro, na então quinta sombreada de uma casa do Cosme Velho, aquele que recebera na sagrada pia batismal, e no oficio profano, o nome de Joaquim Maria Machado de Assis. Viúvo e doente, contava, ao morrer, quase setenta anos.

Era um menino miúdo, bastante calado: mulato de sangue, escuro de pele; negro de boca, límpido de espírito e manso de coração.

Menos pelo precário estudo que teve do que pelo seu esforço pessoal, lhaneza de caráter e pelos árduos trabalhos que exerceu desde bem jovem, aliado ao seu belo nome, atingiu a glória mais pura, mais alta e mais legitima, das letras nacionais.

Ao evocar esse imortal ilustre, o que vem à imaginação, não é o autor de magistrais e preciosas obras que enriqueceram nossa língua; nem o primeiro presidente da vetusta Academia Brasileira de Letras; nem como alto funcionário do antigo Ministério da Viação e Obras Públicas;: mas sim o menino, filho do “mestre” pintor Francisco e de Maria Leopoldina, do morro do Livramento; sacristão do Padre Silveira Sacramento na igreja de Nossa Senhora da Lampadosa; o aprendiz de tipógrafo e revisor da Imprensa Nacional. É, em suma, o garoto humilde, o rapazola obscuro, de que devia engalanar, aos poucos, uma das individualidades mais expressivas da cultura brasileira de todos os tempos.

O Machado de Assis que vem ao espírito e mente, é o do menino do morro carioca, no período mais ignorado e talvez o mais venturoso de sua vida. É o adolescente, com seu rostinho escuro e pálido, com todos os sinais de criança pobre. Seu pai saia bem cedo, escuro ainda, a pé, ia para as bandas de Botafogo, para dar mais uma demão à pintura da casa que se comprometeu pintar.

O menino, de manhã com o sol subindo nas brumas do horizonte, saia da casinha triste de operário modesto, de calça curta de riscado barato, pés descalços e camisa aberta ao peito, lá ia, ladeira abaixo, rumo a cidade, a procura do que fazer. Quem o encontrasse àquela hora e naquela altura, não imaginaria e nem diria, que esse menino escreveria, um dia, O Memorial de Aires ou as Memórias Póstumas de Braz Cubas, e muito mais. Maria Leopoldina morreu. Chico pintor casou-se de novo. Joaquim Maria, agora já com pinta de moço, é aprendiz de tipógrafo. Ao amanhecer, descendo o morro, passa pela Igreja da Lampadosa, onde não é mais sacristão. Por costume, entra no templo e faz uma oração; sente o cheiro de velas que se queimam, enche a alma de uma doçura esquisita que lhe acaricia o coração.

Depois, entra-lhe pela vida a livraria de Paula Brito. Nascem-lhe os primeiros versos.

Ali começa a aparecer à luz da história. Deixou de ser menino do morro, o filho do modesto pintor, o enteado de Leopoldina, o aprendiz obscuro da Imprensa Nacional.

A gloria desse gênio que foi homenageada ao longo de 2008, é o será perpetuamente, pelos anos afora.

Sim, Machado, porque tu não morreste. Tua lembrança está viva, na alma dos que veneram teu nome, ainda vivo no coração da brasilidade, que iluminaste com teu talento.

Louvada seja a tua glória, ó doce e triste menino do morro do Livramento...

Emílio Germani
Pertence à ALM - Academia de Letras de Maringá e ocupa a cadeira Nº 26, tendo como patrono o escritor MACHADO DE ASSIS. É autor de “Coletânea Rotária”; “Encruzilhadas” (autobiografia); “Fragmentos Históricos do Distrito 4630” e "Retalhos da vida". Contato com o autor: germani@wnet.com.br.

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