Literatura

Identidade Severina

(baseado na obra de Antonio da Costa Ciampa – A estória do Severino e a história da Severina)
Este poema nos leva a uma reflexão sobre nossa identidade no mundo.
O que sou, como sou, ou como o mundo me vê.
Faz-nos ver que nossa passagem por estas paragens não é um mero acaso, e que, se faz necessário nos identificarmos com tudo o que somos e com o que fazemos, na medida em que é isso que realmente nos identifica perante o outro e a nós mesmos.
Somos frutos de uma interação com o outro no mundo.
Só existo na medida em que o outro me vê, me identifica.

Nivaldo Donizeti Mossato

Sévérino
É um desses cabra nordestino
que vive pelo mundo
Tentando descobrir sua identidade,
Sua particularidade;
Tentando descobrir quem ele é.

Anda errante, Severino,
Misturado à sua gente,
Que perdida, no repente,
Se confunde, na poeira do chão,
Com tantos Sévérinos,
Magros, raquíticos e desnutridos,
Dos cafundós deste sertão.

Anda errante, Severino,
Indagando ao próprio intéstino,
Entre um ronco e outro,
O que de muito, é pouco,
O pouco que sabe de si.

Quem és tu, sévérino?!
Cabra de péste!
Qual é sua identidade,
Sua particularidade;
Aquilo que te difere,
Dessa prole de morimbundo,
Que errante pelo mundo,
Morre antes de se conhecer?!

Severino, Sévérino,
Tu num é mais minino,
Precisa sabê quem é!

Severino, Sévérino,
Me arrespode pois, seu minino,
Quer saber sua identidade?
Alguma particularidade
que te faça diferente,
Desse amontoado de gente,
Que parece ter o mesmo destino?!
Então me aresponde, cabra da peste:
que nome tem?
Será Sèvèrino, como o outro tomém!

Se tu, cabra nordestino,
Se chama Sèvèrino,
Como outro qualqué,
Qual é a sua diferença,
Aquilo que te identifica,
Aquela parte que explica,
Se tu é home ou muié!
Quem és tu, sévérino?!
Cabra de péste!
Qual é sua identidade?
Tem que havê uma particularidade,
que te difere,
Dessa prole de moribundo,
Que errante pelo mundo,
Morre antes de se conhecer?!
Tu não nasceste do nada:
Fruto de um cabo de enxada
E uma moita de cipó!

Severino, Sévérino,
Me arrespode pois, seu minino,
O nome de seu pai,
De sua mãe,
Ou de sua avó!
Tem que tê alguma coisa
Que te identifique,
Alguma coisa que explique
Quem que tu é!

Severino, sévérino...
Nu mínimo tu é fio dum coroné!
Mais num dá pra sabê;
Sua mãe Maria,
Pári quase todo dia...
E já num sabe de qualé!
Severino, Sévérino,
Esse nome não te identifica,
Tu parece de sê
Uma banana nanica
Igual a tantas outras por aí!
Veja só essa gente,
Morre tão de repente...
Sem ao menos sabê quem é.

Mórre não, Severino!
Mórre não, Sèvèrino!
Num seja um moribundo,
Ainda minino.
Que maldade!
Não descobriu sua identidade,
Nenhuma particularidade,
Que o fizesse diferente,
Desse amuntuado de gente,
Que num sabe quem é!

Mórreu Severino!
Mórreu, Severiiinnno;
Como morre tanta gente,
Dessa prole de moribundo,
Que errante pelo mundo,
Morre antes de se conhecer!

Triste morte Severino!
Triste morte, Sévérino!

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